Às vésperas de nova tensão na Câmara, Prefeitura tenta conter críticas com vídeo sobre inclusão escolar
Prefeita Adriana Duch e Secretaria de Educação divulgam material institucional para defender criação de monitores de apoio, mas dúvidas sobre formação, continuidade dos eventuais e qualidade da inclusão seguem mobilizando pais e profissionais
Horas antes da sessão desta quinta-feira, 11 de dezembro,
quando novamente mães de alunos atípicos e profissionais da educação prometiam
ocupar as galerias da Câmara Municipal de Itapeva, a Prefeitura lançou mão de
uma estratégia incomum: um vídeo de mais de dez minutos, no qual a prefeita
Adriana Duch e a Secretaria de Educação buscam explicar — e sobretudo
justificar — a criação da função de monitor de apoio para alunos com
deficiência. A publicação, divulgada em rede social da prefeita, surgiu como tentativa
evidente de apaziguar o clima que já se tornara um dos mais delicados
enfrentados pela gestão desde o início do ano.
No vídeo, repleto de frases de efeito, a prefeita e a
secretária apostam em uma narrativa baseada em “apreço”, “dedicação”, “amor” e
“capacitação continuada”, conduzida em tom de prestação de contas. Em um
cenário cuidadosamente preparado, identificando uma sala de recursos
multifuncionais, as duas tentam demonstrar que a rede municipal possui
estrutura robusta para acolher alunos com deficiência — uma resposta direta aos
questionamentos que vêm crescendo entre famílias, professores e especialistas
sobre a real qualidade da inclusão praticada no município.
A secretária de Educação, Geni Muzel, inicia explicando o funcionamento
das chamadas salas de recursos, afirmando existirem 22 unidades distribuídas
pela rede municipal. Segundo ela, tais espaços são destinados ao atendimento
especializado dos estudantes com deficiência e ao suporte aos professores que
atuam com eles em sala regular. A prefeita reforça que pais e responsáveis
“podem e devem conhecer” a estrutura. Mas a repetição insistente de que “isso é
inclusão” revela que a crise de confiança instalada na cidade não se resolve
apenas com discursos gravados.
O vídeo avança para a tentativa de esclarecer a polêmica
envolvendo os professores eventuais, historicamente acionados para apoiar
alunos com deficiência, apesar de essa função não constar de suas atribuições
formais. Segundo a secretária, essa prática ocorreu porque, até então, a
legislação federal não regulamentava a figura do monitor de apoio —
regulamentação que, de acordo com ela, veio “agora em outubro”, referindo-se ao
decreto nacional que definiu parâmetros da Política Nacional de Educação Especial.
A certa altura, o diálogo tenta tranquilizar os
profissionais eventuais. A prefeita pergunta se a função vai acabar. A
secretária garante que não: a eventualidade — licenças, abonadas, faltas
médicas — continuará existindo. O argumento, embora repetido, não responde à
principal crítica das próprias mães: muitos relatam que seus filhos passaram
por três, quatro ou mais professores eventuais ao longo do ano, gerando
instabilidade pedagógica e emocional. No próprio vídeo, a prefeita menciona o
relato de uma mãe cujo filho teve quatro trocas de eventuais em 2025,
reconhecendo o problema enquanto tenta provar que o monitor fixo seria a
solução definitiva.
A formação exigida para os novos monitores resume-se ao
ensino médio e à participação em um curso de 180 horas ministrado pelo próprio
município. A secretária afirma que se trata de uma “capacitação continuada”,
como orienta a normativa federal. Ainda assim, o contraste entre a complexidade
da educação inclusiva e a baixa exigência formal dos candidatos segue
alimentando questionamentos de especialistas, sindicatos e famílias.
Internamente, professores apontam que a política criada não resolve o déficit
de profissionais altamente qualificados, nem os desafios que os alunos com
deficiências múltiplas apresentam dentro da sala regular.
Ao final do material, a gestora repete que “Itapeva sempre
foi referência em inclusão”, afirmação contestada de forma crescente entre pais
que têm procurado vereadores, Ministério Público e veículos de imprensa para
denunciar falta de apoio, rotatividade de profissionais e atendimento desigual
entre escolas. No vídeo, a secretária agradece aos eventuais e afirma que o
monitor dará maior estabilidade ao aluno, mas esse argumento contrasta com a
pressa do Executivo em mandar à Câmara um projeto de lei criando 50 vagas para
monitores com ensino médio — proposta que provocou a reação de mães e
professores nesta mesma semana.
O tom conciliador do vídeo também contrasta com a
movimentação política que tomou força nos últimos dias. Enquanto a Prefeitura
se empenhava em comunicar “tranquilidade”, mães e profissionais intensificavam
mobilizações, afirmando que o decreto federal citado no vídeo não impede que
municípios façam exigências mais sólidas de formação. Além disso, advogados
ligados ao tema apontam que a substituição de estagiários e eventuais por
monitores de baixa formação pode representar risco ao aprendizado e à segurança
de alunos com deficiência severa.
A publicação, que tenta soar como prestação de contas,
reforça sobretudo a distância entre a narrativa institucional e a percepção de
parte da população. A prefeita conclui desejando bênçãos e agradecendo o
empenho da equipe, mas o desafio real não está nos discursos: está na
construção de uma política inclusiva capaz de superar improvisações,
dependência da eventualidade e instabilidade profissional. Nesta quinta-feira,
quando a Câmara voltar a debater o tema, a cidade verá se o vídeo trouxe algum
efeito prático — ou se apenas acentuou a impressão de que a gestão tenta
controlar a narrativa sem enfrentar os problemas estruturais da educação
inclusiva em Itapeva.

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