Câmara de Itapeva vive noite de protestos e constrangimento após aprovação das 50 vagas para monitores da Educação
Manifestação de professores e mães de alunos atípicos expôs
falhas do projeto e terminou em tumulto após a mesa encerrar a transmissão
oficial no instante em que uma representante subiu à tribuna
A sessão da Câmara Municipal de Itapeva desta quinta-feira, 4 de dezembro, ficou marcada não apenas pela votação dos projetos que constavam na pauta, mas
pelo ato de protesto protagonizado por professores e mães de alunos atípicos
contra a abertura de 50 vagas para monitores da Educação Básica — proposta
enviada pela prefeita Adriana Duch e aprovada pelos vereadores sem que as
principais partes afetadas fossem ouvidas. O que era para ser um debate público
sobre a política educacional do município transformou-se em um episódio de
forte tensão institucional, constrangimento político e indignação popular, que
se estendeu para além do plenário, ganhando as redes sociais e ampliando a
pressão por uma revisão urgente do processo seletivo já publicado no Diário
Oficial
O protesto começou ainda no início da sessão, quando um
grupo de educadores e familiares de alunos com necessidades específicas ocupou
as cadeiras do plenário. Eles defendem que a função de monitor para atendimento
de crianças atípicas exige formação técnica adequada, preparo emocional e
experiência, e não apenas ensino médio completo e um curso de 80 horas —
critério previsto no edital. Segundo os manifestantes, a mudança fragiliza o
atendimento especializado, coloca em risco alunos que dependem de cuidados
contínuos e, para agravar, substituiria profissionais já atuantes na rede
municipal, os chamados substitutos, que hoje desempenham funções essenciais.
A mesa diretora reconheceu a presença do grupo, mas ao longo
da sessão evitou abrir o debate. A aprovação de outras matérias transcorreu de
forma protocolar, como revelam os registros oficiais da própria sessão, até
que, após a conclusão da ordem do dia, um gesto inesperado do presidente da
Casa, vereador Marinho Nishiyama, acendeu esperança entre os presentes.
Nishiyama anunciou que concederia a palavra a uma das mães representantes —
Neusilene — para que expusesse publicamente as preocupações do grupo
Entretanto, no exato momento em que Neusilene subiu à
tribuna, a transmissão oficial da Câmara foi encerrada. O corte abrupto
indignou o público presente, que imediatamente passou a transmitir a fala por
lives no Facebook. O episódio ampliou o clima de revolta e deixou evidente a
tentativa de blindar a sessão de um debate sensível para a administração
municipal.
A fala da representante, algo que deveria integrar o rito
democrático, repercutiu fortemente nas redes. Nos registros feitos pelos
cidadãos, é possível ouvir o desabafo emocionado de professoras, aplausos
espontâneos e manifestações de apoio que ecoaram por todo o plenário. A
ausência de transmissão oficial apenas reforçou a transparência seletiva que,
ao longo dos últimos meses, tem marcado temas considerados desgastantes para o
governo municipal.
O impacto foi imediato. Tomados pela pressão social e pelo
peso moral da reivindicação, os vereadores Thiago Leitão e Júlio Ataíde subiram
à tribuna para reconhecer publicamente que erraram ao votar favoravelmente à
criação das vagas. Ambos pediram perdão aos educadores e assumiram
arrependimento, afirmando que não deram a atenção necessária aos verdadeiros
afetados pela medida. O gesto foi recebido com aplausos, mas também expôs a
fragilidade técnica do projeto aprovado — e a condução apressada com que tramitou.
Enquanto isso, outros vereadores preferiram não enfrentar o
clima hostil. Em meio ao tumulto e aos protestos, alguns simplesmente deixaram
o plenário sem se pronunciar, repetindo o comportamento da secretária de
Educação, Geni Muzel, que também abandonou o local. A fuga diante da crítica
não passou despercebida pelos presentes, que interpretaram o gesto como
desrespeito à categoria e desprezo pela demanda das famílias de alunos
atípicos.
O episódio encerrou a noite com a sensação de que a Câmara
perdeu a oportunidade de conduzir um debate maduro, amplo e transparente sobre
uma mudança estrutural na política educacional de Itapeva. A tentativa de
silenciar uma manifestação legítima, ainda que não impedida — já que continuou
em lives independentes — gerou efeito contrário: ampliou o desgaste político da
prefeitura e dos vereadores que se mantiveram omissos, reacendeu a mobilização
da categoria e colocou em xeque a validade de um processo seletivo que, segundo
especialistas e educadores, nasceu tecnicamente inconsistente.
Agora, a expectativa da população e dos grupos envolvidos é
que a administração municipal revogue o edital e abra um diálogo real com quem
conhece a realidade das salas de aula e das necessidades específicas dos
alunos. O clamor desta quinta-feira — presencial e digital — deixou claro que
Itapeva não aceitará decisões tomadas de forma vertical, especialmente quando
afetam os mais vulneráveis.
Com o ambiente político pressionado, vereadores divididos e
a opinião pública em ebulição, a revisão do projeto deixou de ser apenas uma
possibilidade: tornou-se uma exigência moral e institucional. A Educação de
Itapeva, sobretudo o atendimento aos alunos atípicos, não pode ser tratada como
mera formalidade administrativa. O protesto desta noite mostrou que os
profissionais e as famílias não permitirão mais retrocessos silenciosos — nem
sessões encerradas no momento em que a voz do povo finalmente chega à tribuna.
Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

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