Sessão acalorada marca votação das contas de 2022 e expõe fissuras políticas no Legislativo
Entre discursos técnicos, confrontos diretos e acusações sobre má gestão, vereadores aprovam por 9 votos as contas do ex-prefeito Mário Tassinari
A sessão ordinária da Câmara Municipal de Itapeva desta
segunda-feira, 24 de novembro, condensou como poucas vezes o espírito político
que domina o Legislativo: divergências profundas, leituras distintas da função
fiscalizatória e embates que escancararam não apenas visões opostas sobre
administração pública, mas também o desgaste acumulado de gestões passadas e da
atual. Em quase quatro horas de debates, a votação das contas de 2022 —
referentes ao último ano completo do então prefeito Mário Tassinari — transformou
a tribuna num palco de confrontos diretos, discursos inflamados e
justificativas que refletiram, mais uma vez, o distanciamento político entre os
próprios parlamentares.
A sessão abriu com a leitura de ofícios, requerimentos e
proposituras, seguiu com discussões rotineiras e avançou de modo tranquilo até
chegar ao ponto que mudaria completamente o clima do plenário: o julgamento das
contas do ex-prefeito. Bastou que o Tribunal de Contas aparecesse na pauta para
que as tensões, antes discretas, emergissem com força.
A relatora do parecer na Comissão de Economia, vereadora
Gleyce Dornelas, iniciou a rodada de debates apresentando um relatório
minucioso, construído ao longo de mais de vinte dias de análise. Sua posição
foi categórica: voto contrário à aprovação das contas. A vereadora elencou uma
série de apontamentos técnicos do Tribunal de Contas — déficits orçamentários
expressivos, inconsistências contábeis, falhas em infraestrutura de escolas e
unidades de saúde, irregularidades em horas extras, problemas no manejo de
resíduos sólidos e fragilidades nos controles internos. O discurso evidenciou
gravidade e fundamentação. Segundo ela, “não se tratava de política, mas de
técnica”.
A exposição acendeu a primeira fagulha. A vereadora Áurea
Rosa pediu a palavra para discordar da colega. Da tribuna, usou sua experiência
como parlamentar na época de Tassinari para sustentar que o Tribunal de Contas,
ao emitir parecer favorável no reexame, deveria ser seguido. Na visão dela, a
realidade vivida pelo município em 2022 — ainda sob efeitos de pandemia,
limitações financeiras e carência de profissionais — não permitia comparações
diretas com o cenário atual. O contraponto marcou a divisão: de um lado, a
leitura técnica; de outro, o argumento de governabilidade e contexto.
A posição de Áurea abriu caminho para outros discursos. O
vereador Ronaldo Coquinho reiterou divergências em relação a gastos mínimos
constitucionais, afirmando que educação e saúde não haviam alcançado os
percentuais obrigatórios no primeiro momento. Já o vereador Tarzan sustentou
que sua rejeição se baseava no “conjunto da obra”, mencionando comissões
processantes, falhas administrativas e denúncias de irregularidades em áreas
como iluminação pública e contratos.
O tom subiu quando o vereador Margarido — que foi secretário
na gestão de Mário Tassinari — subiu à tribuna. Em defesa veemente do
ex-prefeito, rebateu críticas, ironizou denúncias de munícipes e recordou ações
realizadas em 2022, reforçando que muitas obras estavam em execução e que,
apesar das dificuldades, o governo não parou. Nas palavras dele, o ex-prefeito
“podia ser truncado, mas era honesto”. Ao mencionar o episódio das luminárias e
a instalação de 12 mil unidades, o vereador transformou a defesa em ataque
direto a críticos da gestão.
Na sequência, o vereador Robson Leite relativizou críticas,
defendeu o papel técnico do Tribunal e alertou para o risco de julgamentos
puramente políticos. Segundo ele, a responsabilidade do Legislativo exige
prudência, pois amanhã outro gestor poderá ocupar o cargo e ser submetido ao
mesmo escrutínio. Para Robson, “não se trata de simpatia ou antipatia, e sim de
segurança jurídica”.
A fala provocou reação imediata do vereador Roberto Comeron,
que rejeitou comparações entre sua gestão e a de Tassinari, rememorou
devoluções expressivas ao Executivo quando presidiu a Câmara e citou obras e
avanços de sua administração. Em seguida, fez uma leitura dura dos apontamentos
técnicos presentes nos autos, reforçando que diversas falhas apontadas
permaneceram mesmo após o reexame. Seu discurso consolidou o clima de embate
aberto no plenário.
O ambiente ficou ainda mais denso quando o vereador Júnior
Guari, ao questionar Comeron sobre os efeitos práticos de rejeitar ou aprovar
as contas, trouxe perguntas que evidenciaram a desconfiança da população quanto
a eventuais punições. O debate finalizou com explicações sobre repercussões
jurídicas, deixando claro que a votação possui impacto político, ainda que não
implique, necessariamente, sanções imediatas.
Após longos debates, a votação nominal expôs o racha: Nove
vereadores votaram pela aprovação, seguindo o parecer final do Tribunal de
Contas: Áurea Rosa, Júlio do Ataíde, Lucinha Woolck, Marcelo Poli, Margarido, Robson Leite, Val Santos, Vanderlei Pacheco e Junior Guari. Os
outros seis votaram pela votaram pela rejeição, acompanhando a posição da relatora Gleyce.
Como eram necessários 10 votos para derrubar as contas, o ex-prefeito Mário Tassinari teve seu exercício de 2022 aprovado pelo Legislativo, embora o placar tenha deixado evidente que seu nome ainda divide opiniões dentro da Câmara.
Se a sessão escancarou a divisão interna da Câmara, também
mostrou que a população acompanha cada vez mais de perto os movimentos
políticos. A discussão das contas de 2022 não foi apenas um julgamento técnico:
ela revelou fraturas, alinhamentos, ressentimentos e até rivalidades históricas
que moldam a política itapevense.
A mensagem final é clara: a Câmara segue sendo o palco onde
se confrontam visões distintas sobre gestão pública, eficiência administrativa
e responsabilidade fiscal. E, como demonstrado nesta segunda-feira, 24 de
novembro, nem sempre o que está no papel coincide com o que cada vereador
enxerga como verdade política.

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