Política

Prefeita Adriana Duch na fogueira, sessão na câmara escancara crise financeira e descaso

Vereadores expõem má gestão financeira e denunciam descaso com a saúde pública e limpeza urbana; caos administrativo pode comprometer serviços essenciais ao longo de 2025 

Na noite da última quinta-feira, a 9ª sessão ordinária da Câmara Municipal de Itapeva expôs, sem rodeios ou subterfúgios, uma administração pública à beira do caos financeiro e estrutural. A reunião, que poderia ter transcorrido em mero rito protocolar, converteu-se em cenário de duras e fundamentadas críticas à gestão anterior, especialmente diante das revelações contidas no relatório parcial da Comissão Especial de Inquérito (CEI) instaurada para investigar supostas irregularidades na gestão financeira da administração do ex-prefeito Mário Tassinari, referente ao ano fiscal de 2024. 

No epicentro das discussões está um déficit assustador deixado pelo governo anterior, cujo valor estimado ultrapassa R$17 milhões, oriundos de restos a pagar ainda não esclarecidos plenamente. A situação é ainda mais alarmante diante da denúncia explícita de que servidores e secretários teriam autorizado despesas sem o devido processo legal de empenho, numa espécie de 'vale-tudo' fiscal, que agora estoura no colo da gestão atual, liderada pela nova prefeita Adriana Duch. 

Os vereadores, especialmente Paulo Roberto Tarzan Santos, demonstraram uma indignação que transcende disputas partidárias e políticas. Tarzan, com uma voz carregada da experiência de muitos anos na política, não poupou críticas à gestão financeira anterior, classificando a condução das contas municipais como irresponsável e alertando sobre o comprometimento futuro da gestão pública. Segundo o vereador, a irregularidade não é episódica; tornou-se regra uma "excepcionalidade" abusiva que justifica gastos emergenciais constantes, sem planejamento prévio ou devido processo licitatório. 

Mas os problemas não se limitam ao financeiro. Itapeva hoje enfrenta um cenário desolador em termos estruturais e sanitários, uma realidade capturada com precisão pela vereadora Áurea Rosa, cuja fala foi visceralmente autêntica e implacável. Ela narrou a situação desoladora dos bairros Jardim Virgínia, Vila Nova e Morada do Bosque, onde os moradores convivem com colchões, entulhos e uma impressionante proliferação de lixo a céu aberto, resultado desastroso de uma ação mal planejada para combater a dengue. O cenário é caótico a ponto de a população questionar se um furacão passou pela cidade, tamanha a magnitude do descaso. 

Áurea, emocionada pela realidade que vivencia diariamente em seu atendimento direto à população, apontou o dedo para a prefeitura, questionando a eficiência tão alardeada pela gestão da Adriana Duch. Segundo ela, eficiência não passa pela retórica, mas sim por ruas limpas e pela prevenção efetiva de doenças como a dengue, que já atinge preocupantemente familiares de vereadores e muitos outros cidadãos itapevenses. Sua indignação traduz a revolta de uma população cansada de discursos desconectados da realidade, que assiste a uma cidade cada vez mais refém do descontrole administrativo e da omissão gerencial. 

A Prefeitura, atolada em compromissos financeiros insustentáveis, tem optado por remanejar recursos de maneira emergencial, impactando negativamente áreas fundamentais como a saúde. Uma das primeiras vítimas foi a Santa Casa de Misericórdia, que em janeiro sofreu um corte abrupto de R$645 mil em repasses. O vereador Tarzan denunciou com contundência a irresponsabilidade administrativa, que compromete a própria continuidade dos serviços essenciais, obrigando a gestão atual a fazer malabarismos financeiros, sacrificando áreas fundamentais à população. 

Outro ponto criticado fortemente foi a manutenção da farmácia 24 horas, considerada por Tarzan como um exemplo claro de gastos públicos sem racionalidade administrativa. Ele defendeu que a iniciativa, apesar de socialmente relevante, é financeiramente inviável para Itapeva, especialmente no atual contexto econômico. Criticou ainda com severidade o desperdício e a má aplicação dos recursos públicos, mencionando explicitamente um investimento de R$2,5 milhões em contêineres para coleta de lixo, uma política fracassada e questionável diante da realidade da cidade. 

O vereador Robson Leite apresentou uma visão mais ponderada, embora tenha admitido que a gestão anterior do Dr. Mario Tassinari deixou um cenário preocupante. Ainda assim, destacou que políticas públicas relevantes, como a tarifa zero no transporte urbano, não devem ser abandonadas precipitadamente, e sim otimizadas. Sua posição provocou uma reflexão pertinente sobre como equilibrar as finanças públicas sem penalizar a população mais vulnerável.

Entretanto, mais do que apenas críticas políticas, a sessão revelou um profundo descontentamento com a forma como a gestão municipal tem tratado temas cruciais para a população. A denúncia contundente sobre a falta de medicamentos essenciais nas unidades de saúde, relatada por vereadores e cidadãos, expôs uma realidade cruel para milhares de itapevenses que dependem diretamente do serviço público. A ausência de medicamentos básicos na farmácia municipal durante um período em que doenças proliferam desenha um quadro que vai além da incompetência administrativa, chegando ao limiar da negligência. 

Ainda em meio a essa atmosfera carregada de denúncias e indignação, foi apresentado o relatório parcial da Comissão Especial de Inquérito (CEI), que investiga detalhadamente a situação fiscal do município durante o exercício de 2024. O documento revela claramente o tamanho do abismo fiscal deixado pelo governo anterior e levanta questões fundamentais sobre a responsabilidade dos gestores passados. O presidente da comissão, Paulo Roberto Tarzan, anunciou o prosseguimento das investigações, garantindo que a Câmara trará à luz os fatos, doa a quem doer. 

Mais do que expor problemas, a sessão ordinária deste 6 de março serviu para escancarar o desafio urgente que Itapeva tem pela frente. Uma administração pública sem controle financeiro, agravada por decisões administrativas questionáveis e uma crise sanitária iminente, exige uma mudança radical de postura. Cabe à prefeita Adriana Duch e aos vereadores a responsabilidade de recolocar a cidade nos trilhos, antes que a crise financeira se converta em crise humanitária. 

Itapeva, que já foi referência em desenvolvimento regional, vê-se hoje mergulhada em uma crise provocada por administrações míopes e desconectadas da realidade do cidadão Itapevense. É hora de deixar para trás as picuinhas partidárias e agir com responsabilidade, transparência e, sobretudo, respeito com a população que paga os impostos e sofre diariamente com o descaso do poder público.

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