Abordagem Multifacetada: Educação, família e segurança pública no combate à violência nas escolas com Capitão Maciel
Hoje, temos o privilégio de conversar com o Capitão Vilmar Duarte Maciel, uma figura proeminente na segurança pública do Estado de São Paulo. Comandante da Companhia de Força Tática do 54º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I), o Capitão Maciel traz consigo uma bagagem acadêmica e profissional notável. Formado pela renomada Academia de Polícia Militar do Barro Branco, ele também é bacharel em Direito pela Faculdade Anhanguera e possui pós-graduação em Docência de Ensino Superior, bem como em Educação, com ênfase nos Ensinos Fundamental II e Médio, pela mesma instituição. Atualmente, está ampliando seus conhecimentos em segurança pública através de um mestrado na área.
Em nossa conversa, abordaremos questões críticas relacionadas à violência nas escolas, um tema que tem ganhado destaque nos noticiários e gerado preocupações em toda a sociedade. O Capitão Maciel compartilhará sua visão sobre a natureza dessa violência, as formas como ela se manifesta no ambiente escolar, e como diferentes tipos de violência impactam alunos e professores. Além disso, discutiremos o papel da escola, da família e da Polícia Militar na administração e prevenção da violência escolar, um assunto que requer uma abordagem multifacetada e cooperativa.
Com sua vasta experiência no campo da segurança pública e um olhar aguçado sobre questões sociais, o Capitão Maciel oferecerá insights valiosos sobre como podemos construir um ambiente escolar mais seguro e promover uma cultura de paz e respeito. Vamos entender melhor as perspectivas e soluções propostas por um especialista no assunto.
Jornal No Alvo: Como o senhor vê essa violência em escolas?
Capitão: Primeiro temos que entender o que a Organização Mundial da Saúde (OMS), diz sobre violência, que corresponde ao uso intencional da força ou poder em forma de ameaça, podendo ser contra si mesmo ou outra pessoa, grupo ou comunidade que possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação. Ter um olhar para a escola como um “micro universo” de formação dos novos cidadãos e que este lugar deve ser tranquilo, com proteção, um ambiente que preserve a cultura da paz, nos leva a entender que a violência presente no ambiente escolar é um reflexo da vida social, ou seja, uma cópia do mundo fora dos portões escolares, muita das vezes baseadas em preconceitos contra minorias sociais.
Jornal No Alvo: Como se manifesta essa violência em escolas?
Capitão: Ela se manifesta de diversas formas, vão desde psicológicas até física ou a verbal, porém neste micro universo chamado escola os atores podem variar entre quem é o agressor e quem é a vítima, sendo assim qualquer membro da comunidade escolar pode se tornar vítima.
Jornal No Alvo: Como o senhor classifica os tipos de violência nas escolas?
Capitão: Podem ser vários tipos, a violência está presente no ambiente escolar em ações corriqueiras, como apelidos, interrupção na fala, bullying, assédio sexual, discriminação, conversas paralelas, risadas e, em casos mais extremos, partindo para a agressões físicas, porém estamos constantemente cercados pela violência simbólica, a qual por vezes não é percebida ou é tratada como algo natural, pelo fato de já ter-se enraizado em nossa sociedade. Por isso quero frisar que tudo que ocorre dentro do ambiente escolar é reflexo da sociedade em que vivemos.
Jornal No Alvo: Há um aumento da violência dentro das escolas nos últimos anos?
Capitão: Se eu falar “não” estou sendo leviano com o que nós estamos vendo nos meios de comunicação, porém dizer um “sim” seria aceitar isso tudo de uma forma “míope”, então você me faz ficar entre o “sim ou o não”. Então vamos lá, dizendo “sim” estou indo na visibilidade que esse tipo de ocorrência tem se alastrado na mídias e ir para o “não” vou para o lado de que elas sempre existiram e sempre foram administradas de uma maneira ou de outra pelas escolas. Penso que a forma com que a informação tem chegado nas pessoas nos dias de hoje tem gerado a sensação de que tudo está acontecendo de uma só vez e num intervalo de tempo menor.
Jornal No Alvo: A violência escolar vende bem?
Capitão: Sim, ela “apimenta” os noticiários de certa forma, se por um lado existe um sensacionalismo ao ponto de uma irresponsabilidade dessa divulgação que gera “pânico", por outro lado é um sintoma da sociedade de hoje que se interessa pelo fenômeno “violência”, mas lembre-se que eu assisto, eu discuto quando é com o outro, porém quando ocorre no meu quintal, a postura muda, e as pessoas se posicionam contra.
Jornal No Alvo: Como o senhor enxerga a escola?
Capitão: A escola é a antecâmara de um Estado democrático, sem escola não há democracia, é na escola que adquirimos o passaporte para a cidadania, um passaporte para uma vida com dignidade. Eu fui aluno de escola pública devo aos meus professores e mestres que com seu trabalho árduo nunca desistiram da arte de ensinar. Não há saída para o desenvolvimento de nenhum país sem escola, quer mudar uma nação temos que começar pela escola.
Jornal No Alvo: O senhor acredita que a escola hoje pode administrar a questão da violência?
Capitão: Penso que o dia que como sociedade acharmos o contrário disso, e passarmos os dilemas escolares em favor da polícia, ou de psicólogos, advogados, militares, para mim é o fim da ideia da educação, então respondendo a sua pergunta não só acredito com creio que a escola “deve” administrar sim a questão da violência, por que questões escolares são de educadores e gestores escolas, que no meu ponto de vista são totalmente capacitados e preparados para isso. Nunca devemos ser levianos ao ponto de desacreditar nos profissionais da educação, porém as outras instituições podem ajudar com “parcerias” que promovam palestras de prevenção.
Jornal No Alvo: Então a solução passa pelo papel do educador?
Capitão: Sim, a violência é na sociedade em geral e não só na escola, mas tem um elo na escola, pois é na escola que o “conhecimento e a cultura da paz” são passados e as pessoas tem a possibilidade de terem uma vida mediada pela experiência de uma geração para a outra, e tudo isso se resume em percepção histórica dos fatos. Então, tudo passa pela escola e se deixarmos de acreditar que a escola pode tornar as pessoas melhores, então fracassamos como sociedade.
Jornal No Alvo: Capitão e o papel da família?
Capitão: Como disse Rui Barbosa numa frase emblemática “A família é a célula mater da sociedade”. Outra citação que gosto é de Benjamin Franklin, “A família é ainda a pedra fundamental da sociedade”; “Paz e harmonia – esta é a verdadeira riqueza de uma família”; Ou seja, a peça-chave é a família, pois as primeiras orientações partem de casa aos filhos, não devemos deixar de enxergar a família como peça importante desta engrenagem toda, é importante que os pais exerçam o acompanhamento da vida de seus filhos, e não esquecer que os filhos dão indicativos claros que algo está acontecendo, por isso é importante que a família esteja acompanhando. Lembrar sempre que a família é o templo sagrado onde cada pessoa aprende no amor, no respeito a seus pais e irmãos, a amar a Deus e a seus semelhantes, ao mesmo tempo, é a oficina insubstituível onde se constrói as bases da fraternidade humana. A espécie humana só se manterá, enquanto existir a família. Quero deixar claro que: “Nada, ninguém e nenhuma ação vai substituir a participação dentro de casa. Não temos o controle de tudo, mas queremos que as famílias estejam atentas, que possam estar conversando com seus filhos”.
Jornal No Alvo: Nessa parceria Polícia, escola e família, qual o papel da PM?
Capitão: A Policia Militar do Estado de São Paulo desenvolve vários trabalhos em parceria com as escolas como: Ronda Escolar (Que é uma atividade policial ostensiva voltada à segurança dos estabelecimentos de ensino e do perímetro escolar predefinido); Programa de Resistência as Drogas e a Violência - PROERD (Desenvolve um conjunto de ações preventivas contra as drogas e a violência, apoiando iniciativas com a família, estudantes e professores, sendo aplicado aos alunos de forma dinâmica e divertida, além de oferecer várias atividades interativas, participação de grupos e aprendizado cooperativo, autoconhecimento e autogerenciamento, tomada de decisão segura, responsável e saudável, habilidades de comunicação e relacionamento interpessoal e capacidade de lidar com desafios e responsabilidades.); Programa Vizinhança Solidária Escola – PVSE (O objetivo do programa é a criação de uma parceria eficaz, entre a comunidade escolar e a polícia, visando à adoção nas escolas de uma postura “preventiva” contra o crime e à violência, na qual a polícia através de um esforço cooperativo, uma atuação coordenada interagências, amparadas em políticas públicas e no desenvolvimento de boas práticas.); Todas essas iniciativas voltados a prevenção e transmissão de percepção de segurança no ambiente escolar. Também este ano a Policia Militar de São Paulo para dar prioridade a ocorrências que envolvam a comunidade escolar, criou o botão Segurança Escolar, dentro do aplicativo “190 SP” da Polícia Militar, em caso de acionamento por meio dele as escolas terão preferência no despacho de viatura.
Jornal No Alvo: Como o senhor analisa a crescente busca pela segurança privada em escolas?
Capitão: Sou a favor da parceria pública e privada, a segurança terceirizada está presente no cotidiano de empresas, condomínios, residências e essa parceria também pode auxiliar muito no setor educacional. O conjunto de medidas e sistemas de segurança privada quando adequados e bem direcionados pode oferecer mais tranquilidade, tanto para os pais, professores, como para os alunos. Mas tanto a rede pública como a privada devem sempre buscar empresas que possam realizar um estudo sobre os riscos que podem acometer o local. Pois para cada local deve ser elaborado um plano de segurança personalizado, visando amenizar as ameaças e os pontos mais vulneráveis. Porém, não devemos olhar tudo isso como uma solução mágica para o problema dos ataques em escolas.
A entrevista com o Capitão Vilmar Duarte Maciel, comandante da Companhia de Força Tática do 54º BPM/I, revela uma análise profunda sobre a violência escolar e as abordagens para combatê-la. Com uma perspectiva que valoriza a educação, o papel da família, e a atuação da polícia, o Capitão Maciel destaca a necessidade de uma visão integrada e cooperativa para enfrentar este desafio. Sua abordagem não apenas reconhece a complexidade do problema, mas também enfatiza a importância de soluções educacionais e comunitárias, reforçando o papel essencial da escola na formação de cidadãos e na promoção de uma cultura de paz. A discussão abrange desde o impacto das representações midiáticas da violência até a relevância de parcerias entre segurança pública e privada, mostrando a multifaceted natureza do problema e as possíveis soluções.

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